A inteligência artificial (IA) já começa a transformar hospitais, consultórios e sistemas de saúde, assumindo tarefas relacionadas à documentação clínica, ao acompanhamento de pacientes e ao apoio à tomada de decisões. No entanto, à medida que essas ferramentas ganham espaço, cresce também uma preocupação essencial: o que acontecerá com o lado humano da medicina?
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Para Arthur Kleinman, professor de antropologia em Harvard e de psiquiatria na Harvard Medical School, a busca por eficiência não pode se tornar o principal critério para avaliar a qualidade da assistência médica. Reconhecido internacionalmente por seus estudos sobre cuidado, cultura e experiência da doença, Kleinman sustenta que a medicina deve ser compreendida não apenas como uma prática científica, mas também como uma atividade moral.
Eficiência não é sinônimo de cuidado
O especialista argumenta que cuidar significa acompanhar o paciente com respeito, empatia e atenção. Isso envolve ouvir não apenas a pessoa doente, mas também seus familiares, compreender sua realidade social e identificar dificuldades práticas que podem interferir no tratamento.
Apesar disso, grande parte dos sistemas de saúde ainda é avaliada principalmente por indicadores de produtividade, custos e rentabilidade. Elementos como qualidade da comunicação, escuta clínica, confiança e atenção às necessidades da família raramente são medidos de maneira adequada.
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É nesse ambiente que a inteligência artificial começa a ser incorporada. Para Kleinman, a tecnologia pode trazer avanços importantes. Sistemas de IA já conseguem auxiliar na produção de registros médicos, reduzir parte da carga burocrática dos profissionais e organizar informações provenientes das consultas.
A tecnologia também poderá ajudar a medir aspectos do atendimento que hoje permanecem invisíveis, como a qualidade da comunicação entre médico e paciente, a consideração das preocupações familiares e a capacidade de acompanhar pessoas depois da consulta. A IA, entretanto, deve atuar como apoio, e não como substituta dos cuidadores humanos.
Tecnologia deve liberar tempo para relações humanas
Uma das principais oportunidades está na utilização da IA para realizar atividades que frequentemente afastam os profissionais dos pacientes. Ferramentas automatizadas podem ajudar no preenchimento de documentos, no envio de orientações, no acompanhamento de tratamentos e na organização das informações clínicas.
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A expectativa é que essa automação devolva aos médicos e demais profissionais mais tempo para conversar, observar e estabelecer vínculos. O risco, porém, é que hospitais utilizem os ganhos de produtividade apenas para ampliar o número de atendimentos, reduzindo ainda mais o tempo disponível para cada pessoa.
Kleinman lembra que outras tecnologias médicas também foram apresentadas como instrumentos de integração e melhoria do atendimento. O prontuário eletrônico, por exemplo, prometia conectar informações e facilitar o cuidado, mas acabou frequentemente associado à burocracia, ao faturamento e à frustração dos profissionais.
Para evitar que a história se repita, gestores precisarão desenvolver sistemas que combinem excelência clínica, contexto social, trabalho humano e novas tecnologias.
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Saúde mental exige cautela redobrada
A adoção da IA na saúde mental representa uma área particularmente sensível. Kleinman rejeita a ideia de que chatbots possam substituir terapeutas humanos. Sistemas baseados em algoritmos são capazes de prever palavras e reconhecer padrões, mas não possuem consciência nem conseguem compreender plenamente dimensões como inconsciente, luto, trauma e sofrimento emocional.
Em situações envolvendo delírios, risco de suicídio ou perdas pessoais, respostas excessivamente concordantes produzidas por uma IA podem reforçar interpretações perigosas e agravar problemas. Por outro lado, tecnologias desenvolvidas a partir das narrativas dos próprios pacientes podem contribuir para reduzir a agitação em pessoas com demência, diminuindo, em alguns casos, a necessidade de medicamentos antipsicóticos.
O futuro dependerá do julgamento humano
Para os novos profissionais de saúde, a discussão já não é mais sobre utilizar ou não inteligência artificial. A tecnologia fará parte da rotina médica. O desafio será reconhecer em quais situações ela melhora o cuidado e quando precisa ser limitada ou supervisionada.
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O futuro da medicina, portanto, não dependerá apenas de modelos mais rápidos ou diagnósticos automatizados. Dependerá da capacidade dos profissionais e das instituições de utilizar a IA para reduzir obstáculos, sem permitir que a eficiência elimine a escuta, a empatia e a presença humana que sustentam o verdadeiro cuidado.
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