A fronteira entre tecnologia e vida pessoal ficou ainda mais tênue com o lançamento do 2wai, uma plataforma de inteligência artificial (IA) criada pelo ator do Disney Channel Calum Worthy.
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O aplicativo promete gerar avatares interativos de parentes falecidos — capazes de conversar, reagir a diferentes momentos da vida do usuário e “acompanhar” eventos futuros. A proposta, que lembra diretamente episódios de Black Mirror, provocou intenso debate público e levantou questões profundas sobre luto, memória e identidade digital.
Como funciona o 2wai
O aplicativo cria o que chama de “HoloAvatars” a partir de poucos minutos de imagens gravadas da pessoa falecida. Com esse material, o sistema treina um modelo capaz de simular voz, expressões e padrões conversacionais, oferecendo ao usuário a possibilidade de “interagir” com versões digitais de familiares que já partiram.
Um vídeo promocional que viralizou nas redes sociais mostra uma avó digital acompanhando o crescimento do neto — desde o nascimento até a vida adulta. A demonstração, embora tecnicamente impressionante, causou desconforto generalizado e foi seguida por milhares de comentários críticos no X (antigo Twitter).
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Por enquanto, o 2wai está em versão beta e pode ser baixado gratuitamente na App Store da Apple. A empresa já anunciou que pretende adotar um modelo de assinatura em camadas e que versões para Android devem ser lançadas em breve.
O choque do público e a crítica dos especialistas
A reação negativa foi imediata. Nas redes sociais, usuários classificaram o conceito como “demoníaco” e “eticamente inaceitável”. Muitos apontaram que a proposta explora momentos de extrema vulnerabilidade — o luto — ao oferecer uma simulação que pode impedir o processo natural de aceitação da perda.
Especialistas em psicologia e ética tecnológica destacam ainda dois pontos sensíveis:
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- Consentimento dos falecidos: não há garantia de que a pessoa teria autorizado a criação de uma cópia digital pós-morte.
- Integridade emocional dos usuários: conversar com uma réplica algorítmica pode criar vínculos artificiais, dificultando a distinção entre memória afetiva e ficção computacional.
Há também o receio de que tais avatares se tornem um produto comercial baseado no sofrimento humano, transformando o luto em negócio e a memória dos mortos em mercadoria.
Por que isso importa para o futuro da IA
Se já parece complexo observar usuários estabelecendo relações emocionais com modelos de IA — como assistentes de voz e chatbots avançados —, o fenômeno tende a se intensificar quando essas interações envolvem representações de pessoas reais que já morreram.
O 2wai destaca um dilema crescente: até que ponto a inteligência artificial deve se aproximar das fronteiras emocionais humanas? Criar um avatar com a promessa de “preservar um ente querido” pode soar reconfortante, mas também traz o risco de promover uma espécie de dissociação psicológica, na qual a tecnologia ocupa o espaço da memória e do processo de elaboração da perda.
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No final, o aplicativo de Worthy não é apenas mais uma ferramenta de IA: ele simboliza uma nova fase, na qual a tecnologia tenta assumir papéis antes reservados à intimidade, à família e ao próprio significado de despedida. E, como muitos alertam, esse futuro pode ser tão fascinante quanto perturbador.
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