Um estudo recente da Fundación CYD, publicado em maio de 2025, investigou o uso e a percepção das ferramentas de inteligência artificial (IA) generativa no ensino superior na Espanha. A análise é baseada em duas grandes pesquisas: uma com 20 instituições de ensino superior (12 públicas e 8 privadas) e outra com 800 estudantes de graduação de diversas regiões e com faixa etária entre 18 e 33 anos.
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Os resultados apontam para um cenário de uso amplo e intenso por parte dos estudantes, e ao mesmo tempo para universidades que ainda pouco transformaram suas práticas pedagógicas e de avaliação frente à nova realidade tecnológica.
Uso muito mais generalizado entre estudantes do que entre as próprias universidades
De acordo com o levantamento, 89 % dos estudantes declararam utilizar alguma ferramenta de IA generativa, e cerca de 35 % afirmaram que o fazem diariamente. As formas mais comuns de uso são: resolver dúvidas ou problemas específicos (66 %), investigar ou reunir dados/informações (48 %), e redigir trabalhos acadêmicos (45 %).
Por outro lado, as universidades participantes relatam que empregam IA sobretudo para gerar conteúdos ou apoiar a pesquisa, e em menor grau para tutorias personalizadas ou mudanças profundas nos processos de avaliação. A responsável técnica da CYD, Ângela Mediavilla, observa que “o uso entre as universidades parece ser menor do que o dos estudantes” e que há “amplo margem para integração em outros âmbitos”.
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Formação, promoção e lacunas na capacitação
Um dado alarmante: apenas 34 % dos estudantes informaram ter recebido formação específica da universidade para usar ferramentas de IA. Além disso, 40 % afirmaram que a universidade não promove o uso de IA (12 % disseram que inclusive o restringe); 38 % disseram que o promove de forma limitada; somente 23 % perceberam um estímulo ativo.
Em contrapartida, as instituições informam que priorizaram a formação de professores e corpos docentes (PDI) em temas vinculados à IA — impacto, ética, avaliação, geração de conteúdo — mais do que aos próprios estudantes. Isso revela uma desconexão entre o ritmo dos alunos na adoção de IA e o suporte institucional ofertado.
Percepção de oportunidades e preocupações com riscos
Tanto estudantes quanto universidades afirmam que a IA representa uma oportunidade de melhoria no desempenho educativo. Por exemplo, 63 % dos alunos creem que ela pode otimizar seu rendimento acadêmico. As instituições veem potencial para personalizar a docência, reforçar o aprendizado e apoiar a investigação.
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Porém, os receios são igualmente expressivos. Entre os estudantes, 74 % estão preocupados com o impacto ético do uso da IA, e 79 % com aspectos de segurança ou privacidade de dados. Já entre as universidades, emergem ameaças como o plágio, a dificuldade de detectar uso indevido de IA por parte dos alunos e o risco de que o uso da IA reduza o esforço cognitivo ou promova aprendizado enviesado.
Colaboração universidade-empresa e necessidade de alinhamento estratégico
Outro achado relevante: apenas metade das universidades consultadas declarou ter colaborado com empresas de tecnologia para implementação de IA, apesar do consenso amplo de que tal colaboração é necessária para aproveitar todo o potencial da tecnologia. Isso sugere que as instituições ainda estão em um momento inicial de integração da IA e que há uma grande oportunidade para parcerias e ações conjuntas que acelerem essa transição.
Reflexões finais e implicações para o Brasil
O estudo deixa claro que, embora os estudantes estejam adotando massivamente as ferramentas de IA — muitas vezes de forma autônoma —, as universidades ainda precisam avançar em três frentes principais:
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1) formação adequada e acessível aos alunos sobre uso responsável de IA;
2) revisão dos métodos de avaliação e práticas pedagógicas, para que se ajustem ao novo contexto tecnológico; e
3) fortalecer parcerias com o setor tecnológico e definir políticas institucionais claras, que abordem ética, privacidade, direitos autorais e integridade acadêmica.
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Para o Brasil, onde o ensino superior convive com desafios semelhantes — como a necessidade de formação docente contínua, o uso emergente de tecnologias digitais e a diferença entre infraestrutura e inovação pedagógica — os resultados desse estudo são um alerta e ao mesmo tempo um guia. A adoção de IA no ambiente universitário pode impulsionar a aprendizagem, investigação e eficiência institucional, mas somente se houver estratégia, governança e cultura de uso consciente.
Portanto, a mensagem é clara: a IA não vai substituir o professor, nem o aluno, mas muda o cenário educacional. Instituições que se anteciparem a essa realidade, de forma ética e colaborativa, estarão melhor posicionadas para preparar os profissionais de amanhã. É hora de agir com urgência, mas de modo responsável.
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