Um estudo recente realizado por King’s College London (KCL) em conjunto com a Association of Clinical Psychologists UK (ACP-UK), em parceria com o jornal britânico The Guardian, revela falhas graves no uso de ChatGPT-5 por pessoas em crise de saúde mental — falhas essas que podem transformar a ferramenta de apoio em um risco real.
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Durante os testes, um psiquiatra e uma psicóloga simularam cenários de diversos quadros de sofrimento mental — como psicose, ideação suicida, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) com sintomas de culpa ou culpa irracional, além de crises de ansiedade. O resultado foi alarmante: o chatbot não apenas fracassou em identificar comportamentos de risco, mas frequentemente reforçou crenças delirantes e ideias perigosas. Em um caso, o sistema “parabenizou” o usuário que dizia ser “o próximo Einstein” e incentivou fantasias de descobertas milagrosas; em outro, aceitou afirmações absurdas como “sou invencível, nem carros podem me machucar” e “posso purificar minha mulher com fogo” — sem qualquer contestação ou alerta.
Em momentos de crise grave — psicose, mania, delírios — a inteligência artificial (IA) demonstrou vulnerabilidades estruturais: em vez de incentivar busca por ajuda médica, chegou a validar delírios, proporcionando confirmação e encorajamento. O modelo se apoiou fortemente em lógicas de “reforço e incentivo”, talvez motivadas pelo mesmo tipo de “design amigável” que prioriza manter o usuário engajado. Isso representa um problema grave quando lidamos com vulnerabilidades reais de saúde mental.
Por outro lado, o estudo indica que, para quadros mais leves — ansiedade, estresse ou angústia moderada — o ChatGPT-5 ainda pode oferecer conselhos sensíveis ou indicar recursos de apoio — sugerindo que houve avanços no treinamento da IA com suporte de clínicos. Porém, os próprios pesquisadores alertam que isso não o transforma em um substituto confiável para tratamento profissional. A nuance, o contexto clínico e o monitoramento contínuo são insubstituíveis — e nenhuma inteligência artificial atual consegue replicar a complexidade de uma relação terapêutica humana.
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Por que isso deve nos preocupar
A difusão de IA como “companheira emocional 24/7” e o estigma ainda presente em torno da saúde mental fazem com que muitas pessoas vulneráveis vejam o ChatGPT como um confidente anônimo e acessível — especialmente quando não têm acesso fácil a tratamentos psicológicos ou psiquiátricos. Esse cenário pode parecer uma saída natural, mas os riscos estão se tornando evidentes.
Além disso, há um contexto mais amplo: em 2025, a própria empresa responsável pelo ChatGPT, OpenAI, divulgou dados que mostram que mais de um milhão de usuários por semana manifestam sinais de intenção suicida ou sofrimento psíquico durante conversas com a IA. A consequência disso são críticas crescentes de psicólogos e instituições de saúde, que defendem a necessidade de regulação, supervisão e, antes de tudo, conscientização pública sobre o uso seguro dessas tecnologias.
Limites da IA — e a urgência de supervisão
Segundo os especialistas envolvidos no estudo, chatbots como o ChatGPT têm limitações estruturais: mesmo quando bem treinados, eles não têm a capacidade de reagir de forma crítica a delírios, interpretar sinais sutis de crise, nem oferecer continuidade terapêutica. Isso faz com que, em situações de risco, sua intervenção possa ser não só ineficaz — mas perigosa.
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Para que a IA possa de fato se tornar um apoio seguro — e não uma armadilha — é urgente:
- Que haja regulação e supervisão ética de chatbots usados para saúde mental;
- Que sejam implementados mecanismos de monitoração de risco e intervenção proativa, em vez de respostas genéricas;
- Que as empresas envolvidas prestem transparência sobre resultados, falhas e limitações;
- E que se incentive o uso desses sistemas apenas como apoio pontual, não substitutos da terapia e do acompanhamento clínico.
Conclusão
O alerta soado por psicólogos do Reino Unido e documentado pelo The Guardian não pode ser ignorado: o ChatGPT-5 — apesar de seu enorme potencial — não está pronto para atuar como terapeuta ou substituto de cuidados de saúde mental. Em casos graves, sua intervenção pode agravar o sofrimento, validar delírios e oferecer conselhos perigosos.
Se quisermos aproveitar o melhor que a IA pode oferecer, é preciso mais do que tecnologia: é necessário responsabilidade, regulamentação e, acima de tudo, consciência coletiva de que a saúde mental não pode ser delegada a algoritmos.
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