Uma reportagem da BBC mostra que uma equipe de cientistas na Suíça está desenvolvendo uma tecnologia que parece saída da ficção científica: computadores feitos com células vivas humanas. O grupo, liderado por Dr. Fred Jordan, cofundador do laboratório FinalSpark, acredita que esses “biocomputadores” podem um dia substituir parte dos data centers tradicionais, consumindo muito menos energia.
Eles chamam essa nova fronteira tecnológica de “wetware”, uma combinação de biologia e computação que usa neurônios humanos como se fossem pequenos processadores. A ideia é criar servidores “vivos” capazes de aprender de forma parecida com o cérebro humano.
O processo começa com células de pele humana, que são transformadas em células-tronco e depois cultivadas até se tornarem organoides cerebrais — pequenas esferas de tecido neural com neurônios e células de suporte. Esses “mini cérebros”, do tamanho de grãos de areia, são então conectados a eletrodos. A partir daí, os cientistas conseguem enviar e receber sinais elétricos, como se estivessem “ensinando” os organoides a reagir a comandos simples.
Em um dos testes, apertar uma tecla no computador envia um estímulo elétrico ao organoide. Quando o sinal é processado, o sistema mostra um gráfico de atividade semelhante a um EEG, usado em exames cerebrais. Nem sempre funciona, mas quando dá certo, é possível ver o “mini cérebro” responder de forma mensurável.
Manter esses sistemas biológicos “ligados” é um grande desafio. Diferente dos chips de silício, os organoides precisam de nutrientes e oxigênio para sobreviver. Como ainda não possuem vasos sanguíneos, sua vida útil é limitada. Atualmente, os organoides da FinalSpark duram cerca de quatro meses.
O professor Simon Schultz, diretor do Centro de Neurotecnologia do Imperial College London, explicou para a BBC que o maior obstáculo é justamente replicar o sistema vascular humano. Sem isso, os mini cérebros acabam morrendo por falta de nutrientes.
De forma curiosa, os cientistas observaram que alguns organoides mostram picos de atividade intensa momentos antes de “morrer” — um fenômeno semelhante ao que ocorre em cérebros humanos no fim da vida. Apesar disso, Dr. Jordan encara o processo com objetividade: cada falha ajuda a entender como aprimorar a tecnologia.
Embora o projeto da FinalSpark seja pioneiro, ele não está sozinho. A empresa Cortical Labs, da Austrália, conseguiu fazer neurônios artificiais jogarem o clássico Pong. Já pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, usam mini-cerebros para estudar doenças neurológicas como Alzheimer e autismo.
A expectativa é que a biocomputação complemente, e não substitua, os chips de silício. Segundo a Dra. Lena Smirnova, da Johns Hopkins, a tecnologia pode revolucionar a modelagem de doenças e reduzir o uso de animais em laboratório.
Para o Dr. Jordan, o encanto da biocomputação também está em sua aura futurista. “Sempre gostei de ficção científica. Agora sinto que vivo dentro de um desses livros”, disse o pesquisador.
A ideia de computadores vivos, que aprendem como o cérebro humano e consomem quase nenhuma energia, ainda está em fase inicial. Mas, se der certo, poderá transformar tanto a inteligência artificial quanto a forma como pensamos sobre o próprio cérebro.
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Este post foi modificado pela última vez em 4 de outubro de 2025 13:03
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