Coreia do Sul recua em projeto bilionário de livros didáticos com IA após críticas de professores e pais

A Coreia do Sul cancelou, após apenas quatro meses, um ambicioso programa de livros didáticos baseados em inteligência artificial (IA). O projeto, que pretendia personalizar o aprendizado e reduzir a carga de trabalho de professores, enfrentou forte rejeição de educadores, estudantes e famílias, observou o site rest of world.

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O governo havia prometido que os livros digitais com IA transformariam o ensino no país, oferecendo conteúdos adaptados ao nível de cada aluno. No entanto, a realidade foi bem diferente. Problemas técnicos, erros de conteúdo e riscos à privacidade dos dados levaram o projeto ao fracasso.

Como funcionava o projeto de IA nas escolas

A iniciativa, lançada durante o governo do ex-presidente Yoon Suk Yeol, tinha como meta modernizar o ensino com tecnologia de ponta. Doze editoras foram autorizadas a desenvolver versões digitais de livros de matemática, inglês e informática. O investimento público ultrapassou 1,2 trilhão de wons (cerca de US$ 850 milhões), além de 800 bilhões de wons (US$ 567 milhões) aplicados pelas editoras.

“Os livros digitais pioraram o aprendizado e afetaram negativamente as habilidades de leitura e comunicação” Jang Ha-na

Os livros foram adotados oficialmente no início do ano letivo, em março de 2025. No entanto, logo surgiram reclamações sobre falhas nos sistemas e dificuldades de uso. “As aulas atrasavam por causa de problemas técnicos. Além disso, era difícil manter a concentração estudando sozinho no laptop”, relatou Ko Ho-dam, estudante do ensino médio na Ilha de Jeju.

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Reações e polêmicas nas escolas

Pais e professores relataram que os livros apresentavam informações incorretas, aumentavam o tempo de tela das crianças e, paradoxalmente, geravam mais trabalho para os docentes. Sindicatos e organizações civis processaram o Ministério da Educação, alegando que a adoção obrigatória dos materiais ignorava riscos à segurança de dados e o impacto no desenvolvimento dos alunos.

“Os livros digitais pioraram o aprendizado e afetaram negativamente as habilidades de leitura e comunicação”, afirmou ao rest of world Jang Ha-na, do grupo Political Mamas.

Com o aumento das críticas, o governo transformou o programa em um teste opcional de um ano. Em agosto, já sob uma nova administração, os livros perderam o status de material oficial e passaram a ser considerados apenas “materiais suplementares”, de uso facultativo. A adesão despencou: de 37% no primeiro semestre para apenas 19% no segundo.

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Pressa e falta de testes levaram ao fracasso

Segundo parlamentares e especialistas, o programa foi implantado às pressas. Enquanto livros impressos levam até 18 meses para serem desenvolvidos, os digitais com IA foram criados em apenas 12. “Tudo foi feito rápido demais. Um projeto desse porte precisa ser testado antes de ser aplicado em sala de aula”, criticou a deputada Kang Kyung-sook.

Mesmo com a polêmica, empresas envolvidas afirmam que seguiram protocolos de segurança e que os livros poderiam beneficiar alunos com dificuldades, estudantes de famílias multiculturais e crianças em áreas rurais. “Usar dispositivos digitais mantém os alunos mais engajados e atentos”, defendeu Kim Jong-hee, diretor da Dong-A Publishing.

Educação e tecnologia: uma lição aprendida

A experiência da Coreia do Sul mostra que a integração da inteligência artificial na educação exige cautela. Especialistas apontam que a IA pode ser útil em tarefas de reforço escolar e acompanhamento individual, mas que não substitui o papel do professor.

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Para o professor Kim Cha-myung, que testou os livros em Gwangmyeong, a ideia tinha potencial, mas falhou pela execução apressada. “O programa fracassou porque tudo foi feito com pressa. Faltou tempo para avaliar a eficácia”, disse.

No fim, a frustração foi generalizada. “Agora, o maior problema é que ninguém mais confia no governo”, resumiu um educador.

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