A inteligência artificial (IA) está deixando de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar, na prática, uma “porta de entrada” para cuidados de saúde. Um novo estudo do King’s College London revelou que 15% dos britânicos já recorreram a chatbots de IA em vez de consultar um clínico geral ou outro serviço do sistema público de saúde do Reino Unido (NHS). O dado — equivalente a cerca de uma em cada sete pessoas — acendeu um alerta entre médicos, pesquisadores e autoridades de saúde.
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A pesquisa, divulgada nesta semana e repercutida pelo jornal The Guardian, analisou respostas de mais de 2 mil pessoas no Reino Unido. O levantamento mostra que a popularização de ferramentas como OpenAI ChatGPT, assistentes conversacionais e apps baseados em IA está alterando profundamente a forma como pacientes buscam orientação médica — especialmente em um cenário marcado por filas longas, falta de profissionais e dificuldades de acesso ao sistema público.
Entre os entrevistados que usaram IA para questões de saúde, 25% disseram ter recorrido aos chatbots devido à demora para conseguir atendimento médico. Ainda mais preocupante: cerca de 20% afirmaram que a conversa com a IA os desencorajou a procurar ajuda profissional posteriormente.
O estudo também aponta que 10% dos participantes já utilizaram inteligência artificial como substituta de apoio psicológico ou terapia tradicional. Isso inclui desde desabafos emocionais até pedidos de aconselhamento sobre ansiedade, estresse e depressão.
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Para especialistas, os números mostram que uma nova camada paralela de “saúde digital” está surgindo fora das estruturas tradicionais de regulação médica. O professor Graham Lord, do King’s College London, afirmou ao Guardian que um “sistema de saúde não regulamentado baseado em IA” já está emergindo ao lado do NHS.
A popularidade crescente desses sistemas não acontece por acaso. Chatbots de IA oferecem respostas instantâneas, disponibilidade 24 horas por dia e linguagem acessível — algo especialmente atrativo em momentos de ansiedade ou urgência. Em muitos casos, usuários relatam sentir que a IA é mais empática, paciente e detalhista do que interações rápidas com profissionais sobrecarregados.
Essa percepção encontra respaldo parcial em pesquisas recentes. Um estudo publicado neste ano em pré-print concluiu que, em avaliações textuais, respostas geradas por IA frequentemente foram percebidas como mais empáticas do que as de profissionais humanos de saúde.
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Mas a aparente “humanização” dos chatbots também representa um risco crescente. Pesquisadores alertam que modelos de linguagem podem fornecer diagnósticos incorretos, reforçar crenças equivocadas ou deixar de identificar sinais graves em situações clínicas complexas.
Segundo o próprio relatório citado pelo King’s College London, há evidências de que sistemas de IA podem errar diagnósticos em até 80% dos casos médicos iniciais analisados em determinados contextos.
Além disso, estudos recentes indicam que usuários tendem a confiar excessivamente em respostas geradas por IA — mesmo quando elas estão erradas. Uma pesquisa acadêmica de 2024 mostrou que participantes frequentemente avaliavam respostas médicas produzidas por IA como tão confiáveis quanto as de médicos reais, mesmo em cenários de baixa precisão.
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O fenômeno acontece justamente no momento em que modelos de IA começam a apresentar resultados impressionantes em medicina. Em abril, pesquisadores de Harvard University divulgaram um estudo indicando que um modelo da OpenAI superou médicos humanos em precisão diagnóstica em casos de triagem de emergência.
Esse contraste cria um cenário complexo: ao mesmo tempo em que a IA demonstra potencial real para transformar a medicina, cresce também o risco de dependência excessiva, automedicação e substituição inadequada do acompanhamento profissional.
A discussão ganha ainda mais relevância no campo da saúde mental. Pesquisas recentes têm levantado preocupações sobre casos de “AI psychosis” — situações em que usuários desenvolvem vínculos emocionais extremos ou passam a acreditar cegamente nas respostas de chatbots.
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Mesmo assim, a tendência parece irreversível. A IA já está sendo incorporada em hospitais, plataformas de telemedicina, sistemas de triagem e aplicativos de bem-estar em ritmo acelerado. Empresas de tecnologia e instituições de saúde apostam que os modelos generativos poderão reduzir custos, acelerar diagnósticos e ampliar acesso médico em regiões carentes.
O desafio agora é equilibrar inovação com segurança. Médicos defendem que a IA seja usada como ferramenta complementar — e não como substituta da avaliação clínica humana. Já pesquisadores pedem regulamentações mais claras, transparência nos modelos e mecanismos que incentivem usuários a procurar profissionais em situações críticas.
No centro dessa transformação está uma pergunta cada vez mais urgente: quando a IA se torna boa o suficiente para aconselhar pacientes — e quem será responsável quando ela errar?
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