As maiores empresas listadas nos Estados Unidos estão falando cada vez mais sobre inteligência artificial (IA). No entanto, além do medo de perder oportunidades — o chamado “Fomo” (fear of missing out) — poucas conseguem explicar de forma clara como a tecnologia já está transformando seus negócios.
Uma análise do Financial Times baseada em centenas de registros corporativos e transcrições de executivos de companhias do índice S&P 500 mostra como a onda da IA está se espalhando pela indústria americana, mas ainda de forma desigual.
Gigantes da tecnologia como Microsoft, Alphabet, Amazon e Meta estão na linha de frente. Apenas neste ano, prometeram investir cerca de US$ 300 bilhões em infraestrutura voltada a modelos de linguagem avançados. Essas companhias buscam não apenas inovar em produtos, mas também consolidar domínio em um mercado em rápida expansão.
Não são apenas as Big Tech que falam em inteligência artificial. Grupos distantes do Vale do Silício, como a Coca-Cola e a fabricante de roupas esportivas Lululemon, vêm mencionando o tema com frequência crescente em relatórios e comunicados oficiais. Porém, nesses casos, o tom costuma ser mais cauteloso: aparecem preocupações com riscos de cibersegurança, questões legais e a possibilidade de que os sistemas falhem.
Empresas que atuam em serviços ao cliente e em negócios com grande volume de dados parecem ser as que conseguem demonstrar melhor o uso da tecnologia. A Paycom, especializada em serviços de folha de pagamento, destacou que a inteligência artificial já funciona como um “diferencial importante” para conquistar e manter clientes.
Outros exemplos mostram aplicações variadas. A Huntington Ingalls, fornecedora militar, utiliza IA em processos de apoio a decisões de campo de batalha. A Zoetis, do setor de saúde animal, aplica a tecnologia para acelerar exames em cavalos. Já a Dover Corporation, do setor industrial, desenvolveu um sistema para rastrear veículos danificados por granizo até a conclusão do reparo.
Apesar da criatividade nas aplicações, os resultados financeiros não são imediatos. Entre os três exemplos, apenas a Dover Corporation teve desempenho expressivo em ações desde o lançamento do ChatGPT em novembro de 2022. Mesmo assim, seu crescimento apenas acompanhou de perto o índice S&P 500 Equal Weighted, que mede o desempenho das empresas sem deixar que gigantes como Apple, Microsoft e Nvidia dominem os resultados.
Segundo especialistas, muitas empresas ainda não têm clareza estratégica sobre como usar inteligência artificial de forma eficaz. “Quando se trata da adoção da IA, muitas companhias não são guiadas por uma estratégia, mas pelo ‘Fomo’”, afirma Haritha Khandabattu, diretora sênior de análise da consultoria Gartner. “Para alguns líderes, a pergunta não é ‘Qual problema estou resolvendo?’, mas sim ‘E se meu concorrente resolver antes de mim?’”.
A onda de entusiasmo em torno da IA mostra que a tecnologia se tornou um tema inevitável para empresas de todos os setores. Porém, o desafio real está em ir além do discurso e provar que o investimento se traduz em inovação sustentável e ganhos financeiros concretos. Até lá, a inteligência artificial segue sendo tanto uma promessa quanto um dilema para os maiores grupos empresariais dos Estados Unidos.
Este post foi modificado pela última vez em 23 de setembro de 2025 14:33
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