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Inteligência Artificial

IA tem custo ambiental maior do que se imaginava, alerta relatório da ONU

Publicado por
Isabella Caminoto

A inteligência artificial (IA) está transformando setores inteiros da economia, impulsionando avanços em saúde, educação, ciência e produtividade. Mas por trás das respostas instantâneas dos chatbots e da crescente capacidade dos modelos generativos existe uma infraestrutura física gigantesca que consome energia, água e espaço em níveis cada vez mais preocupantes. Um novo relatório da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH) lança luz sobre essa realidade e alerta que os impactos ambientais da IA podem estar sendo amplamente subestimados.

Intitulado The Environmental Cost of Artificial Intelligence: Carbon, Water and Land Footprints, o estudo argumenta que a discussão sobre sustentabilidade da IA tem se concentrado excessivamente nas emissões de carbono, deixando de lado outros fatores igualmente importantes, como o consumo de água e a ocupação de terras necessárias para alimentar a expansão dos data centers que sustentam a revolução da inteligência artificial.

O crescimento explosivo dos data centers

Segundo o relatório, os data centers globais consumiram cerca de 448 terawatts-hora (TWh) de eletricidade em 2025, volume superior ao consumo anual da maioria dos países do planeta. Esse consumo gerou aproximadamente 208 milhões de toneladas de dióxido de carbono, valor semelhante às emissões anuais da Argentina. Além disso, a produção dessa energia exigiu cerca de 4,5 trilhões de litros de água.

Os pesquisadores estimam que esses números poderão praticamente dobrar até 2030 caso a demanda por inteligência artificial continue crescendo no ritmo atual. Nesse cenário, os data centers passariam a consumir cerca de 945 TWh de eletricidade por ano — equivalente ao consumo total do Japão — além de emitir quase 400 milhões de toneladas de CO₂ anualmente.

A ONU ressalta que a IA já responde por aproximadamente 20% do consumo energético dos data centers, percentual que pode atingir 40% até o final da década. Curiosamente, a maior parte desse gasto não ocorre durante o treinamento dos modelos, mas durante sua utilização cotidiana por milhões de usuários em todo o mundo.

A crise invisível da água

Um dos aspectos mais preocupantes destacados pelo relatório é a pegada hídrica da inteligência artificial.

Os sistemas de IA dependem de enormes estruturas computacionais que precisam ser constantemente resfriadas para evitar superaquecimento. Esse processo demanda grandes volumes de água, muitas vezes em regiões que já enfrentam estresse hídrico.

As projeções da ONU indicam que os data centers poderão consumir até 9,3 trilhões de litros de água por ano até 2030. Para colocar esse número em perspectiva, trata-se de um volume equivalente às necessidades domésticas de aproximadamente 1,3 bilhão de pessoas na África Subsaariana.

Os pesquisadores alertam que os impactos não serão distribuídos igualmente pelo planeta. Enquanto os benefícios econômicos da IA tendem a se concentrar em países tecnologicamente avançados, os custos ambientais frequentemente recaem sobre comunidades distantes dos centros de inovação.

Além do carbono: a disputa por território

O relatório também destaca uma dimensão frequentemente ignorada: a ocupação territorial necessária para sustentar a infraestrutura da IA.

A expansão dos data centers exige vastas áreas para instalações computacionais, sistemas elétricos, redes de transmissão e estruturas de resfriamento. Estimativas apontam que a pegada territorial associada ao ecossistema global da IA poderá alcançar cerca de 14.500 quilômetros quadrados até 2030 — área superior à de diversas capitais e regiões metropolitanas do mundo.

Além disso, especialistas vêm chamando atenção para outro problema crescente: o consumo de minerais estratégicos e a geração de resíduos eletrônicos associados à fabricação de GPUs e outros componentes utilizados em sistemas avançados de IA. Estudos recentes sugerem que a sustentabilidade da inteligência artificial precisa ser avaliada ao longo de todo o ciclo de vida do hardware e do software, e não apenas durante sua operação.

O desafio da IA sustentável

Apesar dos alertas, os autores do relatório deixam claro que a solução não passa por interromper o avanço da inteligência artificial. Em vez disso, defendem maior transparência das empresas de tecnologia, adoção de métricas ambientais padronizadas, investimentos em energia renovável, sistemas de resfriamento mais eficientes e políticas públicas capazes de equilibrar inovação e sustentabilidade.

A principal mensagem do estudo é simples: a inteligência artificial não existe apenas na nuvem. Ela depende de uma infraestrutura física gigantesca, com impactos reais sobre clima, recursos hídricos e uso do solo. À medida que a tecnologia se torna parte cada vez mais central da economia global, compreender e administrar esses custos ambientais será tão importante quanto desenvolver modelos mais poderosos e inteligentes.

Este post foi modificado pela última vez em 9 de junho de 2026 17:36

Isabella Caminoto

Advogada e mestranda em Direito Internacional, tenho a democracia e a liberdade como bandeiras irrenunciáveis. Sou apaixonada pelos animais e acredito que o bem-estar do nosso planeta deveria ser o destaque diário da pauta da nossa sociedade.

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