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Inteligência Artificial

Metade dos trabalhadores dos EUA nunca usa IA no trabalho — e isso pode ampliar um abismo no mercado

Publicado por
Isabella Caminoto

Um novo relatório da Gallup joga um balde de água fria na narrativa de que a inteligência artificial (IA) já se tornou onipresente no ambiente corporativo. Segundo o estudo AI in the Workplace, referente ao quarto trimestre de 2025, quase metade dos trabalhadores norte-americanos afirma nunca utilizar ferramentas de IA no trabalho. O dado revela que, apesar do avanço acelerado da tecnologia nos últimos anos, a adoção começa a dar sinais de estagnação — e, mais preocupante, de desigualdade estrutural.

Adoção cresce, mas para poucos

O levantamento mostra que o uso de IA no trabalho avançou fortemente entre 2024 e 2025, mas agora começa a se estabilizar. O crescimento não desapareceu, mas passou a se concentrar em grupos específicos. Profissionais de tecnologia lideram com folga: 60% afirmam usar IA com frequência, ainda que o ritmo de crescimento nesse setor já esteja desacelerando.

Na sequência aparecem áreas como finanças, educação e serviços profissionais, que também vêm incorporando a IA de forma mais consistente. Em contraste, setores como varejo e manufatura seguem muito atrás, com taxas de uso significativamente menores. A promessa de uma “IA para todos”, ao menos por enquanto, está longe de se concretizar.

O fator invisível: trabalho remoto

Um dos recortes mais reveladores do estudo diz respeito ao tipo de função exercida. Trabalhadores em cargos compatíveis com trabalho remoto apresentam 66% de adoção de IA, sendo que 40% usam essas ferramentas com frequência. Já em funções que exigem presença física, esses números despencam para 32% de adoção e apenas 17% de uso frequente.

Esse dado ajuda a explicar por que a IA avança tão rapidamente em áreas administrativas, criativas e analíticas, enquanto permanece distante de ocupações operacionais. A tecnologia não é apenas uma questão de acesso a ferramentas, mas de desenho do trabalho. Onde há computador, autonomia e tarefas cognitivas, a IA floresce; onde há processos físicos e rígidos, ela ainda engatinha.

Chefes usam muito mais IA do que suas equipes

Outro ponto crítico destacado pela Gallup é a diferença entre liderança e base operacional. 69% dos líderes afirmam usar IA, contra apenas 40% dos colaboradores individuais. Isso cria um cenário delicado: decisões estratégicas estão sendo cada vez mais influenciadas por análises assistidas por IA, enquanto boa parte das equipes permanece fora desse novo paradigma.

Segundo o relatório, o principal motivo para a não adoção não é medo, rejeição ou resistência ideológica, mas algo mais simples — e mais difícil de resolver: a “falta de utilidade clara”. Muitos trabalhadores simplesmente não enxergam como a IA pode ajudá-los em suas tarefas diárias.

O mito da adoção automática

Os dados desmontam a ideia de que a simples disponibilidade de ferramentas de IA garante seu uso. Mesmo com soluções cada vez mais acessíveis, integradas e fáceis de usar, metade da força de trabalho segue à margem. Isso sugere que o gargalo não é tecnológico, mas organizacional e cultural.

Empresas que não investem em capacitação, exemplos práticos e incentivos claros acabam criando um ambiente em que a IA existe — mas não é incorporada. O resultado é uma adoção superficial, restrita a entusiastas ou a cargos de liderança.

Por que isso importa agora

A principal conclusão do relatório é clara: a IA está remodelando o mercado de trabalho, mas de forma profundamente desigual. Essa assimetria tende a se ampliar. Trabalhadores e setores que adotam a tecnologia ganham produtividade, velocidade e capacidade analítica. Os demais ficam para trás — não por falta de talento, mas por falta de integração.

O paradoxo é que justamente os setores hoje mais atrasados são os que mais poderiam se beneficiar da IA. Aqueles que romperem essa barreira primeiro terão uma vantagem competitiva desproporcional, intensificando a concorrência e elevando o padrão de desempenho esperado.

Em 2026, a questão já não é mais se a IA vai transformar o trabalho, mas quem será transformado por ela — e quem ficará de fora. O relatório da Gallup deixa um alerta incômodo: a revolução já começou, mas não está acontecendo para todos.

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Este post foi modificado pela última vez em 26 de janeiro de 2026 13:12

Isabella Caminoto

Advogada e mestranda em Direito Internacional, tenho a democracia e a liberdade como bandeiras irrenunciáveis. Sou apaixonada pelos animais e acredito que o bem-estar do nosso planeta deveria ser o destaque diário da pauta da nossa sociedade.

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