Metade dos trabalhadores dos EUA nunca usa IA no trabalho — e isso pode ampliar um abismo no mercado
Um novo relatório da Gallup joga um balde de água fria na narrativa de que a inteligência artificial (IA) já se tornou onipresente no ambiente corporativo. Segundo o estudo AI in the Workplace, referente ao quarto trimestre de 2025, quase metade dos trabalhadores norte-americanos afirma nunca utilizar ferramentas de IA no trabalho. O dado revela que, apesar do avanço acelerado da tecnologia nos últimos anos, a adoção começa a dar sinais de estagnação — e, mais preocupante, de desigualdade estrutural.
O levantamento mostra que o uso de IA no trabalho avançou fortemente entre 2024 e 2025, mas agora começa a se estabilizar. O crescimento não desapareceu, mas passou a se concentrar em grupos específicos. Profissionais de tecnologia lideram com folga: 60% afirmam usar IA com frequência, ainda que o ritmo de crescimento nesse setor já esteja desacelerando.
Na sequência aparecem áreas como finanças, educação e serviços profissionais, que também vêm incorporando a IA de forma mais consistente. Em contraste, setores como varejo e manufatura seguem muito atrás, com taxas de uso significativamente menores. A promessa de uma “IA para todos”, ao menos por enquanto, está longe de se concretizar.
Um dos recortes mais reveladores do estudo diz respeito ao tipo de função exercida. Trabalhadores em cargos compatíveis com trabalho remoto apresentam 66% de adoção de IA, sendo que 40% usam essas ferramentas com frequência. Já em funções que exigem presença física, esses números despencam para 32% de adoção e apenas 17% de uso frequente.
Esse dado ajuda a explicar por que a IA avança tão rapidamente em áreas administrativas, criativas e analíticas, enquanto permanece distante de ocupações operacionais. A tecnologia não é apenas uma questão de acesso a ferramentas, mas de desenho do trabalho. Onde há computador, autonomia e tarefas cognitivas, a IA floresce; onde há processos físicos e rígidos, ela ainda engatinha.
Outro ponto crítico destacado pela Gallup é a diferença entre liderança e base operacional. 69% dos líderes afirmam usar IA, contra apenas 40% dos colaboradores individuais. Isso cria um cenário delicado: decisões estratégicas estão sendo cada vez mais influenciadas por análises assistidas por IA, enquanto boa parte das equipes permanece fora desse novo paradigma.
Segundo o relatório, o principal motivo para a não adoção não é medo, rejeição ou resistência ideológica, mas algo mais simples — e mais difícil de resolver: a “falta de utilidade clara”. Muitos trabalhadores simplesmente não enxergam como a IA pode ajudá-los em suas tarefas diárias.
Os dados desmontam a ideia de que a simples disponibilidade de ferramentas de IA garante seu uso. Mesmo com soluções cada vez mais acessíveis, integradas e fáceis de usar, metade da força de trabalho segue à margem. Isso sugere que o gargalo não é tecnológico, mas organizacional e cultural.
Empresas que não investem em capacitação, exemplos práticos e incentivos claros acabam criando um ambiente em que a IA existe — mas não é incorporada. O resultado é uma adoção superficial, restrita a entusiastas ou a cargos de liderança.
A principal conclusão do relatório é clara: a IA está remodelando o mercado de trabalho, mas de forma profundamente desigual. Essa assimetria tende a se ampliar. Trabalhadores e setores que adotam a tecnologia ganham produtividade, velocidade e capacidade analítica. Os demais ficam para trás — não por falta de talento, mas por falta de integração.
O paradoxo é que justamente os setores hoje mais atrasados são os que mais poderiam se beneficiar da IA. Aqueles que romperem essa barreira primeiro terão uma vantagem competitiva desproporcional, intensificando a concorrência e elevando o padrão de desempenho esperado.
Em 2026, a questão já não é mais se a IA vai transformar o trabalho, mas quem será transformado por ela — e quem ficará de fora. O relatório da Gallup deixa um alerta incômodo: a revolução já começou, mas não está acontecendo para todos.
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Este post foi modificado pela última vez em 26 de janeiro de 2026 13:12
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