[gtranslate]

Inteligência Artificial

Singapura e Emirados Árabes lideram o uso de IA; Brasil e Sul Global ficam para trás

Publicado por
Isabella Caminoto

A inteligência artificial (IA) está se espalhando pelo mundo em uma velocidade sem precedentes. Segundo o novo AI Diffusion Report, publicado pelo AI Economy Institute e pela Microsoft, mais de 1,2 bilhão de pessoas já usaram ferramentas de IA — um ritmo mais acelerado do que o da internet, do computador pessoal e até do smartphone.

O estudo classifica a IA como uma “tecnologia de uso geral”, ou seja, uma inovação com potencial de transformar toda a sociedade, assim como a eletricidade, o vapor e a própria internet fizeram em séculos anteriores. Mas, embora o avanço seja impressionante, ele não é igual para todos.

O relatório mostra que o uso de IA no Norte Global é quase o dobro do registrado no Sul Global, revelando uma nova divisão tecnológica que pode definir o futuro das próximas décadas.

Três forças que impulsionam o avanço da IA

De acordo com o relatório, toda grande revolução tecnológica depende de três forças principais:

  • Frontier builders – os criadores e pesquisadores que desenvolvem os modelos mais avançados, como o GPT-5 da OpenAI.
  • Infrastructure builders – engenheiros e empresas que fornecem a base tecnológica, como data centers e redes de energia.
  • Usuários – pessoas, empresas e governos que aplicam a IA no dia a dia.

“O progresso acelera quando essas três forças evoluem juntas”, destaca o estudo. Thomas Edison criou a lâmpada, mas foi a combinação de redes elétricas e consumidores que transformou a eletricidade em um bem essencial. O mesmo está acontecendo agora com a inteligência artificial.

Onde a IA cresce mais — e onde está parada

A pesquisa revela que o uso da IA está fortemente ligado à infraestrutura digital e econômica. Países com acesso amplo à eletricidade, internet rápida e educação tecnológica apresentam níveis muito maiores de adoção.

Em Singapura e nos Emirados Árabes Unidos, mais da metade da população em idade ativa já utiliza ferramentas de IA — cerca de 59% e 58%, respectivamente. Esses países se destacam por terem investido durante décadas em conectividade, qualificação e políticas digitais coordenadas.

Dados de Difusão de IA/Microsoft

No entanto, em várias partes da África Subsaariana e da Ásia, a taxa de adoção ainda é inferior a 10%. Segundo o relatório, cerca de 4 bilhões de pessoas no mundo continuam sem as condições básicas para usar a IA — incluindo acesso confiável à eletricidade e à internet.

Relatório técnico de difusão de IA/Microsoft

Brasil ainda enfrenta desafios para ampliar o acesso à IA

No Brasil, o uso da inteligência artificial cresce rapidamente entre empresas e usuários conectados, mas o país ainda enfrenta grandes desigualdades regionais e estruturais. Segundo o AI Diffusion Report, apenas uma parcela da população tem acesso pleno às ferramentas mais avançadas, concentrada principalmente nos grandes centros urbanos e em setores de alta tecnologia. A limitação de infraestrutura digital, com acesso irregular à internet de alta velocidade, e a baixa oferta de qualificação profissional em IA e ciência de dados freiam o ritmo de adoção nacional.

Embora o Brasil tenha um ecossistema promissor de startups de IA e iniciativas em universidades, o país ainda está distante do desempenho observado em economias como Singapura ou Emirados Árabes Unidos. O relatório aponta que, sem políticas públicas voltadas à educação tecnológica, conectividade e inclusão digital, o Brasil corre o risco de ampliar a distância em relação às nações líderes na revolução da inteligência artificial.

Infraestrutura concentrada e barreiras linguísticas

Os dados mostram que os Estados Unidos e a China concentram 86% da capacidade global de data centers, o que significa que a base física da IA ainda está nas mãos de poucas nações.

Além disso, a barreira do idioma se tornou um novo desafio. “A IA é construída sobre dados — principalmente linguagem humana”, explica o relatório. No entanto, metade do conteúdo da internet está em inglês, mesmo que apenas 5% da população mundial seja nativa nesse idioma.

Isso limita o acesso de milhões de pessoas em países onde predominam línguas pouco representadas na web, como o chichewa no malawi ou o laosiano no Laos. Nessas regiões, mesmo com internet e eletricidade, a IA se torna praticamente inacessível.

O relatório mostra que países de idiomas com poucos recursos têm taxas de adoção 20% menores, mesmo em condições semelhantes de renda e conectividade.

Um novo mapa da inovação global

O estudo também apresenta três índices que ajudam a entender o avanço da IA no mundo:

  • AI Frontier Index: mede o desempenho e a inovação dos modelos mais avançados.
  • AI Infrastructure Index: mostra onde há capacidade técnica para treinar e escalar IA.
  • AI Diffusion Index: reflete onde a IA está efetivamente sendo usada.

Hoje, apenas sete países abrigam modelos de IA de ponta: Estados Unidos, China, Coreia do Sul, França, Reino Unido, Canadá e Israel. Mas a diferença entre eles está diminuindo. A China, por exemplo, está apenas seis meses atrás dos EUA em desempenho médio de modelos.

“O ritmo de avanço na fronteira é o mais rápido da história”, afirma o relatório, indicando que a corrida pela IA é mais dinâmica que qualquer revolução tecnológica anterior.

A lição da Coreia do Sul: adotar pode ser mais importante que inventar

O documento relembra um exemplo clássico do século 20. Em 1960, Coreia do Sul e Filipinas tinham níveis semelhantes de renda e educação. Porém, ao investir em manufatura, tecnologia e educação, a Coreia do Sul deu um salto de desenvolvimento.

“Superar a barreira linguística e digital não é apenas um desafio técnico”, aponta o relatório. “É uma oportunidade de garantir que a inteligência artificial sirva a toda a humanidade, em todos os idiomas.”

O país não inventou os semicondutores, mas se tornou líder mundial em sua produção — graças à capacidade de adotar e aprimorar tecnologias criadas em outros lugares. “O sucesso sul-coreano mostra que a adoção tecnológica pode impulsionar uma nação inteira”, destaca o relatório.

O desafio da inclusão digital na era da IA

A pesquisa deixa claro que a próxima etapa do avanço da inteligência artificial será garantir acesso equitativo. Enquanto os países ricos já colhem os benefícios da automação e da produtividade, grande parte da população mundial ainda enfrenta barreiras estruturais.

A Microsoft e o AI Economy Institute concluem que o valor real da IA será medido não pelo número de modelos criados, mas pelos benefícios sociais que ela gerar.

Este post foi modificado pela última vez em 31 de outubro de 2025 15:58

Isabella Caminoto

Advogada e mestranda em Direito Internacional, tenho a democracia e a liberdade como bandeiras irrenunciáveis. Sou apaixonada pelos animais e acredito que o bem-estar do nosso planeta deveria ser o destaque diário da pauta da nossa sociedade.

Posts recentes

OpenAI ajuda a desvendar doenças raras infantis e dá nova esperança a casos sem diagnóstico

Um dos maiores desafios da medicina moderna está nos chamados "casos sem resposta": pacientes que…

23 de junho de 2026

Argentina quer criar empresas comandadas por IA — e acende debate global sobre responsabilidade e poder

A Argentina deu um passo inédito na corrida global pela inteligência artificial (IA). O governo…

22 de junho de 2026

Data centers no espaço? Musk revela plano para levar a IA à órbita terrestre

A corrida global pela inteligência artificial (IA) acaba de ganhar uma nova fronteira: o espaço.…

14 de junho de 2026

Metade dos norte-americanos teme perder o emprego para a IA — e a ansiedade só aumenta

A inteligência artificial (IA) já deixou de ser uma promessa tecnológica distante para se tornar…

13 de junho de 2026

IA supera professores de Direito em estudo de Stanford e acende debate sobre o futuro da educação jurídica; confira

A inteligência artificial (IA) acaba de alcançar mais um marco simbólico na educação superior. Um…

9 de junho de 2026

IA tem custo ambiental maior do que se imaginava, alerta relatório da ONU

A inteligência artificial (IA) está transformando setores inteiros da economia, impulsionando avanços em saúde, educação,…

9 de junho de 2026