Pesquisadores do MIT, em parceria com o Hospital Infantil de Boston e a Harvard Medical School, desenvolveram uma ferramenta de inteligência artificial capaz de criar representações em 3D altamente detalhadas de fetos em desenvolvimento. O sistema, chamado provisoriamente de Fetal SMPL, utiliza machine learning para analisar imagens de ressonância magnética (MRI) e gerar modelos precisos que podem auxiliar médicos na detecção precoce de anomalias.
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Atualmente, exames de ultrassom são o método mais comum de acompanhamento da gravidez. Eles oferecem imagens bidimensionais que ajudam a identificar sexo, tamanho aproximado e possíveis alterações, como problemas cardíacos ou lábio leporino. Já a ressonância magnética pode criar imagens em 3D, mas interpretar esses volumes complexos ainda é um desafio para médicos, já que o cérebro humano não está habituado a processar informações volumétricas com tantos detalhes.
Prever com alta precisão a localização e o tamanho do feto
Foi nesse cenário que nasceu o Fetal SMPL, uma adaptação do modelo SMPL (Skinned Multi-Person Linear model), usado originalmente na computação gráfica para representar corpos adultos. Treinado com 20 mil exames de ressonância, o sistema consegue prever com alta precisão a localização e o tamanho do feto, criando representações tridimensionais semelhantes a esculturas digitais.
Um diferencial é que cada modelo contém um esqueleto interno com 23 articulações, conhecido como “árvore cinemática”, que permite reproduzir as poses e movimentos naturais do feto observados durante o treinamento. O resultado é uma visão muito mais clara do desenvolvimento fetal, com erros médios de alinhamento de apenas 3,1 milímetros — menor que um grão de arroz.
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Essa precisão abre caminho para análises clínicas mais detalhadas. Médicos poderão, por exemplo, medir com exatidão o tamanho da cabeça ou do abdômen do bebê e comparar esses dados com padrões de fetos saudáveis na mesma fase da gestação. Em testes iniciais, a ferramenta já demonstrou resultados promissores ao alinhar modelos 3D com exames reais.
Resultado mais confiável
Segundo o pesquisador do MIT e autor principal do estudo, Yingcheng Liu, um dos grandes desafios é justamente estimar a forma e a postura do feto, já que ele se movimenta em um espaço muito limitado. O sistema resolve esse problema alternando entre estimativas de pose e formato até encontrar o resultado mais confiável.
Para avaliar o desempenho, os cientistas compararam o Fetal SMPL com um modelo chamado SMIL, projetado para representar bebês já nascidos. Como os recém-nascidos são maiores que fetos, o SMIL precisou ser reduzido em 75% para permitir a comparação. Ainda assim, o novo sistema superou o modelo anterior, recriando exames de 24 a 37 semanas de gestação com muito mais precisão.
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Outro destaque é a eficiência: em apenas três tentativas, o Fetal SMPL já alcançava bons resultados, estabilizando a acurácia a partir da quarta iteração. Isso demonstra que, além de preciso, o método é rápido e prático para uso clínico.
Há limitações a serem superadas
Apesar dos avanços, os pesquisadores reconhecem limitações. Atualmente, a tecnologia só representa a superfície do corpo fetal, com ossos e pele, sem incluir órgãos internos como fígado, pulmões ou músculos. O próximo passo é transformar o modelo em uma versão volumétrica que também permita monitorar o desenvolvimento interno do bebê.
Especialistas externos ao estudo também destacam o potencial da ferramenta. Kiho Im, professor da Harvard Medical School, afirma que a tecnologia pode aumentar a utilidade diagnóstica da ressonância fetal e trazer novos insights sobre o desenvolvimento cerebral relacionado aos movimentos do corpo. Já o professor Sergi Pujades, da Universidade Grenoble Alpes, ressalta que o modelo abre caminho para entender a evolução da forma e dos movimentos humanos desde a vida intrauterina até a fase adulta.
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A pesquisa foi desenvolvida em colaboração por cientistas do MIT CSAIL, do Hospital Infantil de Boston e da Harvard Medical School, com apoio do National Institutes of Health e do programa MIT CSAIL-Wistron. O trabalho será apresentado em setembro na International Conference on Medical Image Computing and Computer Assisted Intervention (MICCAI), um dos principais eventos internacionais da área.
Combinando ciência da computação e medicina, o Fetal SMPL pode representar um marco para o acompanhamento pré-natal. Se ampliado para diferentes idades gestacionais e condições clínicas, pode se tornar uma ferramenta essencial para diagnósticos mais precisos e intervenções antecipadas, oferecendo às gestantes e médicos uma nova forma de observar a vida em formação.



