[gtranslate]

Jogo eletrônico simula escravidão e reforça racismo

Um jogo eletrônico em que o usuário é um “proprietário de escravos” estava disponível até o início da tarde desta quarta-feira (24) na plataforma do Google Play. O jogador era estimulado a obter “lucro” e contratar guardas para evitar rebeliões. Havia até uma opção para que o usuário explorasse sexualmente as pessoas colocadas sob seu poder dentro do mundo virtual.

Publicado por
Isabella Caminoto

O jogo mostra imagens de pessoas acorrentadas, inclusive um homem negro, que aparecia coberto de grilhões em uma estética semelhante a um desenho animado. Na capa, uma gravura histórica retratava um homem branco, em roupas elegantes, ao lado de um homem negro escravizado seminu.

O Simulador de Escravidão tinha sido baixado mil vezes até a manhã desta quarta-feira (24), segundo o Google Play. Um desenvolvedor de nome Magnus Games apresenta-se como criador deste e de outros jogos disponíveis na plataforma. Os perfis nas redes sociais não permitem identificar com clareza qual seria a empresa ou pessoa por trás do produto.

Fonte: Reprodução/Google Play

Racismo grosseiro

A historiadora e psicanalista Mariléa de Almeida vê “racismo grosseiro” no jogo. “Naturalizando a escravização, a desumanização desses corpos negros, como se brincar e fazer um jogo, como se isso não tivesse efeito sobre as pessoas negras, identificadas na sua ancestralidade, mas sobretudos nas pessoas que estão jogando”, enfatizou a pesquisadora, que faz parte da rede de Historiadorxs Negrxs.

Para a historiadora, o produto “reforça os estereótipos, usa de todo o estereótipo racial e da desumanização produzida pelo racismo para o conjunto da população negra para fazer um jogo”.

A especialista lembra que o chamado racismo recreativo é uma conduta que foi tornada crime a partir de lei sancionada em janeiro que equiparou o crime de injúria racial ao de racismo.

Na avaliação de Mariléa, as pessoas ainda sentem que há espaço para esse tipo de conduta devido à construção histórica de que pessoas negras não são seres humanos iguais aos demais. “Esse crime sustenta, do ponto de vista histórico, a naturalização de corpos negros como sendo desumanizados, objetificados”, enfatiza.

“Essa mentalidade, que se expressa no próprio psiquismo que valida as pessoas se engajarem em um jogo desses, sem perceberem o horror. Sem sentirem um horror, um incômodo”, acrescenta Mariléa sobre as razões para que seja possível a criação e o uso desse tipo de produto.

Repercussão

O deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) publicou em sua conta no Twitter que entrará com representação no Ministério Público por crime de racismo pedindo a prisão dos responsáveis.

“A própria existência de algo tão bizarro à disposição nas plataformas mostra a urgência de regulação do ambiente digital”, disse o parlamentar que é relator do PL das Fake News (PL 2630/220).

Google

Em nota, o Google informou que removeu o jogo de sua loja de aplicativos e que toma medidas para coibir a incitação ao ódio e violência.

“Temos um conjunto robusto de políticas que visam manter os usuários seguros e que devem ser seguidas por todos os desenvolvedores. Não permitimos apps que promovam violência ou incitem ódio contra indivíduos ou grupos com base em raça ou origem étnica, ou que retratem ou promovam violência gratuita ou outras atividades perigosas”, ressalta a nota da empresa.

(Com Agência Brasil)

Leia também:

Este post foi modificado pela última vez em 24 de maio de 2023 17:35

Isabella Caminoto

Advogada e mestranda em Direito Internacional, tenho a democracia e a liberdade como bandeiras irrenunciáveis. Sou apaixonada pelos animais e acredito que o bem-estar do nosso planeta deveria ser o destaque diário da pauta da nossa sociedade.

Posts recentes

IA promete eficiência na saúde, mas Harvard alerta para risco de desumanização do cuidado

A inteligência artificial (IA) já começa a transformar hospitais, consultórios e sistemas de saúde, assumindo…

10 de julho de 2026

GPT-5.6: OpenAI apresenta sua IA mais poderosa, mas restringe acesso a poucos parceiros

A OpenAI apresentou oficialmente o GPT-5.6, sua mais nova geração de modelos de inteligência artificial…

29 de junho de 2026

OpenAI entra na guerra dos chips e desafia Nvidia e Google na corrida pela infraestrutura da IA; conheça o Jalapeño

A OpenAI deu um passo que pode redefinir o equilíbrio de poder no setor de…

25 de junho de 2026

OpenAI ajuda a desvendar doenças raras infantis e dá nova esperança a casos sem diagnóstico

Um dos maiores desafios da medicina moderna está nos chamados "casos sem resposta": pacientes que…

23 de junho de 2026

Argentina quer criar empresas comandadas por IA — e acende debate global sobre responsabilidade e poder

A Argentina deu um passo inédito na corrida global pela inteligência artificial (IA). O governo…

22 de junho de 2026

Data centers no espaço? Musk revela plano para levar a IA à órbita terrestre

A corrida global pela inteligência artificial (IA) acaba de ganhar uma nova fronteira: o espaço.…

14 de junho de 2026