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Inteligência Artificial

A IA entrou no cotidiano — mas não para todos: o novo retrato da adoção segundo a OECD

Publicado por
Isabella Caminoto

A inteligência artificial (IA) deixou de ser uma promessa distante e passou a fazer parte do dia a dia de milhões de pessoas. Dados recentes da OECD (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), extraídos do ICT Usage and Access Database, mostram que mais de um terço dos indivíduos nos países da OECD usou ferramentas de IA generativa em 2025. O número impressiona pelo ritmo de crescimento — mas também expõe desigualdades profundas na forma como essa tecnologia está sendo incorporada por pessoas e empresas.

A popularização da IA generativa

O avanço da IA generativa em apenas poucos anos é notável. Em 2025, ferramentas capazes de escrever textos, resumir informações, gerar imagens e auxiliar em tarefas cognitivas complexas já estavam presentes na rotina de uma parcela significativa da população. Isso confirma a percepção de que a IA deixou o campo experimental e passou a integrar práticas cotidianas, do estudo ao trabalho, do lazer à resolução de problemas práticos.

No entanto, a adoção não ocorre de maneira homogênea. A OECD destaca que a maior clivagem no uso de IA é etária, com uma diferença de 53,6 pontos percentuais entre faixas de idade. Jovens e estudantes estão muito à frente do restante da população, o que sinaliza um possível redesenho geracional das competências digitais.

Uma geração “nativa de IA”

Entre estudantes com 16 anos ou mais, o dado é ainda mais expressivo: cerca de 75% afirmam usar ferramentas de IA generativa. Isso sugere que, para essa geração, a IA já é vista menos como uma inovação e mais como uma extensão natural das ferramentas de aprendizado e produtividade.

Esse comportamento tem implicações profundas. Por um lado, pode acelerar processos educacionais, ampliar o acesso ao conhecimento e estimular novas formas de aprendizagem. Por outro, levanta debates sobre dependência tecnológica, desenvolvimento do pensamento crítico e desigualdade entre estudantes que têm — ou não — acesso qualificado a essas ferramentas.

A longo prazo, essa diferença etária tende a se refletir no mercado de trabalho, criando uma vantagem competitiva para quem já chega ao mundo profissional habituado a “trabalhar junto” com sistemas de IA.

Empresas avançam, mas em ritmo desigual

No setor corporativo, a adoção de IA também segue em expansão, embora de forma mais cautelosa. Em 2025, 20,2% das empresas nos países da OECD relataram utilizar IA, um aumento significativo em relação aos 14,2% registrados em 2024. Isso representa um crescimento anual de 42,4% no uso corporativo, ainda robusto, mas já indicando uma desaceleração quando comparado aos anos iniciais de explosão da tecnologia.

Um ponto central do relatório é que esse avanço permanece concentrado em empresas de TIC (tecnologia da informação e comunicação) e em setores intensivos em conhecimento, como finanças, consultoria, ciência e engenharia. Indústrias mais tradicionais, pequenas empresas e setores com menor maturidade digital continuam ficando para trás.

O risco de uma economia em duas velocidades

Os dados da OECD desenham um cenário de adoção assimétrica: jovens versus adultos mais velhos, empresas intensivas em conhecimento versus setores tradicionais, grandes organizações versus pequenos negócios. Essa dinâmica cria o risco de uma economia em duas velocidades, na qual os ganhos de produtividade, renda e inovação se concentram em grupos específicos.

Se não houver políticas públicas, programas de capacitação e estratégias de difusão tecnológica, a IA pode acabar ampliando desigualdades já existentes, em vez de reduzi-las. O relatório sugere, ainda que implicitamente, que o desafio agora não é mais “introduzir” a IA, mas democratizar seu uso de forma responsável e inclusiva.

O que esses números realmente dizem

Mais do que estatísticas, os dados da OECD revelam uma mudança estrutural em curso. A IA já influencia como aprendemos, trabalhamos e tomamos decisões. A questão central passa a ser quem participa dessa transformação e em quais condições.

Para governos, o recado é claro: investir apenas em inovação não basta — é preciso investir em alfabetização em IA, requalificação profissional e acesso equitativo à tecnologia. Para empresas, o alerta é estratégico: adotar IA cedo pode significar vantagem competitiva duradoura, mas ignorá-la pode representar perda de relevância.

Uma virada silenciosa, mas decisiva

Em 2025, a IA generativa cruzou um ponto de inflexão. Tornou-se comum, cotidiana e — para muitos jovens — indispensável. Ainda assim, os dados mostram que essa revolução não está sendo vivida por todos da mesma forma. O futuro da IA, ao que tudo indica, dependerá menos da tecnologia em si e mais da capacidade das sociedades de integrá-la de maneira ampla, justa e sustentável.

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Este post foi modificado pela última vez em 28 de janeiro de 2026 14:49

Isabella Caminoto

Advogada e mestranda em Direito Internacional, tenho a democracia e a liberdade como bandeiras irrenunciáveis. Sou apaixonada pelos animais e acredito que o bem-estar do nosso planeta deveria ser o destaque diário da pauta da nossa sociedade.

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