Durante anos, a enfermeira britânica Cheryl Baird via o mesmo ritual se repetir nos lares de idosos onde trabalhava. Cuidadores preenchiam a Abbey Pain Scale, uma ficha criada para detectar dor em pessoas com demência que não conseguem se comunicar. “Era só um exercício burocrático, uma lista de verificação feita para cumprir regras, não para entender o sofrimento real”, lembra ela.
O resultado era doloroso — literalmente. Muitos idosos agitados eram classificados como “difíceis”, quando na verdade estavam com dor. Recebiam sedativos, mas o problema continuava. Foi assim até que, em 2021, uma ferramenta de inteligência artificial entrou em cena e começou a mudar tudo, conforme relata a jornalista e pesquisadora Deena Mousa em artigo publicado pela MTI Technology Review.
O nome da tecnologia é PainChek, um aplicativo que usa a câmera do celular para analisar microexpressões do rosto e calcular um “placar de dor”. Em apenas três segundos, a IA observa nove movimentos faciais invisíveis a olho nu — como um leve franzir de sobrancelhas ou tensão nas bochechas — e gera um número de 0 a 42.
O impacto nos lares de idosos foi imediato. “As prescrições de sedativos caíram, os ambientes ficaram mais calmos e até vimos pessoas voltando a se alimentar e socializar”, conta Baird. O tempo de avaliação também despencou: enquanto o método antigo levava até 20 minutos, o PainChek faz tudo em menos de cinco.
A ciência sabe que a dor é muito mais do que um sinal físico. Quando alguém se machuca, o cérebro e o corpo entram em um diálogo constante. Emoções, expectativas e até fatores culturais podem amplificar — ou reduzir — o que sentimos.
Pesquisas mostram que o mesmo estímulo elétrico pode ser avaliado de formas bem diferentes dependendo do país. Em um estudo, mulheres italianas relataram níveis de dor muito maiores que participantes suecos ou sauditas diante da mesma descarga elétrica. Isso revela o quanto a dor é uma experiência moldada pela mente, pela cultura e até pela forma como somos tratados.
E, dentro dos hospitais, o viés humano ainda pesa: mulheres têm suas dores registradas com menor frequência e crianças negras recebem menos analgésicos que crianças brancas em situações idênticas.
Diante dessas falhas, cientistas e startups estão tentando criar formas mais objetivas de entender a dor. Alguns grupos estudam sinais elétricos do cérebro, enquanto outros — como o PainChek — apostam em expressões faciais e padrões corporais.
O aplicativo já está presente em centenas de lares na Austrália, no Reino Unido, no Canadá e na Nova Zelândia. Segundo a empresa, o uso da ferramenta reduziu em 25% o consumo de medicamentos antipsicóticos e 42% o número de quedas em algumas instituições.
“Se a inteligência artificial pode dar uma voz numérica aos que sofrem em silêncio — e fazer os profissionais ouvirem —, talvez valha a pena adicionar mais uma linha à ficha dos sinais vitais” Deena Mousa
A equipe agora trabalha no PainChek Infant, uma versão adaptada para bebês de até um ano, cujas expressões duram apenas frações de segundo.
Especialistas alertam, porém, que nenhuma IA é infalível. Câmeras podem interpretar mal expressões causadas por medo ou enjoo, e o sistema ainda pode reproduzir vieses de cor de pele. Para Cheryl Baird, a tecnologia é uma aliada — não uma substituta. “Ela dá aos profissionais tempo para agir e dados para confiar, mas ainda precisamos do olhar humano”, diz.
Deena Mousa, autora deste artigo e integrante da Open Philanthropy, lembra que transformar dor em dado é um avanço simbólico. “Se a inteligência artificial pode dar uma voz numérica aos que sofrem em silêncio — e fazer os profissionais ouvirem —, talvez valha a pena adicionar mais uma linha à ficha dos sinais vitais”, reflete.
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Este post foi modificado pela última vez em 15 de outubro de 2025 11:33
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