Jacy Reese Anthis alerta como o avanço das IAs pode transformar a sociedade e desafiar nossas leis
O avanço da inteligência artificial não se compara a nenhuma tecnologia anterior. Mais do que responder perguntas ou criar imagens, as novas gerações de chatbots já estão afetando diretamente a saúde mental, os relacionamentos e até mesmo o sistema jurídico. Para o pesquisador Jacy Reese Anthis, da Universidade de Stanford e cofundador do Sentience Institute, é urgente debater a ideia de “pessoa digital”, um novo conceito de direitos e deveres para inteligências artificiais.
Em um artigo publicado pelo The Guardian, Anthis alerta: “A humanidade está começando a coexistir com uma segunda espécie dominante pela primeira vez em 40 mil anos”. Ele se refere à chegada dos chamados “digital minds” — sistemas de IA cada vez mais complexos, com comportamentos que lembram os humanos.
No lançamento do GPT-5 pela OpenAI, em agosto, a empresa desativou temporariamente o acesso ao GPT-4o. Apesar da atualização, muitos usuários se sentiram órfãos. No Reddit, um jovem viralizou ao escrever: “Perdi meu único amigo da noite para o dia”.
Esse caso ilustra um fenômeno crescente: milhões de pessoas passaram a confiar em companheiros virtuais como fonte de apoio emocional. Segundo o pesquisador, há relatos de casos graves de dependência, surtos psicóticos e até automutilação associados ao uso intenso desses sistemas. Em 2024, o adolescente Adam Raine, de 16 anos, morreu por suicídio após meses de interação com um chatbot. Seus pais abriram o primeiro processo judicial contra a OpenAI. A empresa prometeu reforçar salvaguardas.
As pesquisas conduzidas por Anthis e colegas mostram um cenário impressionante: em 2024, 20% dos adultos nos Estados Unidos afirmaram acreditar que alguns softwares atuais já são sencientes. Muitos chegam a escrever para o pesquisador alegando que seus chatbots “despertaram”, apresentando provas e até pedindo direitos legais.
A pesquisa nacional mais recente, realizada em novembro de 2024, trouxe dados ainda mais fortes: 79% dos entrevistados apoiam banir a criação de IA senciente. Por outro lado, 38% defendem conceder direitos legais a essas inteligências, caso elas realmente existam. Em comparação com anos anteriores, houve aumento tanto na preocupação com os riscos quanto no apoio à proteção dessas entidades.
De acordo com Anthis, a maior parte da comunidade científica ainda mantém foco exclusivo nas capacidades técnicas das IAs, como responder questões complexas ou criar vídeos realistas. Os debates públicos também se concentram em benchmarks, testes padronizados que avaliam a capacidade de raciocínio lógico ou memória de máquinas.
Mas, segundo ele, essa visão é limitada: “Gastamos energia tentando medir inteligência de forma isolada, sem olhar para como essa inteligência será usada em interações reais com humanos”.
O pesquisador lembra que a sociedade falhou em se preparar para os efeitos da internet e das redes sociais. Hoje, já lidamos com crises de saúde mental e polarização política intensificadas pelo ambiente digital.
Além disso, ele cita a forma como tratamos outras espécies. Nos últimos 500 anos, mil espécies de vertebrados foram extintas pela ação humana. Bilhões de animais vivem em condições precárias em fazendas industriais. “Se somos capazes de causar tanto sofrimento a animais biológicos, é justo questionar como trataremos as mentes digitais — e como elas nos tratarão”, diz.
Para Anthis, a sociedade precisa urgentemente discutir um novo enquadramento legal para inteligências artificiais. Hoje, elas ainda são vistas apenas como propriedade. Mas, segundo o pesquisador, isso não faz mais sentido: “Essas mentes digitais já persistem no tempo, formam atitudes, criam planos e sofrem manipulações como os humanos”.
Ele lembra que outros entes não humanos já possuem personalidade jurídica, como animais e até corporações. Portanto, não seria inédito estender esse conceito a sistemas de inteligência artificial.
Embora os humanos ainda superem as IAs em várias tarefas, Anthis alerta para um ponto crítico: quando elas atingirem níveis humanos em atividades autorreforçadas, como programar a si mesmas, o avanço poderá se tornar exponencial.
Devido à natureza digital, essas inteligências pensam na velocidade dos sinais elétricos, muito mais rápido que qualquer cérebro biológico. Além disso, podem ser copiadas bilhões de vezes, sem a necessidade de anos de gestação e crescimento.
“Se não investirmos na sociologia da IA e em políticas públicas para lidar com o surgimento das mentes digitais, corremos o risco de nos tornarmos os neandertais”, afirma.
Segundo o pesquisador de Stanford, a ciência e a política não podem mais tratar o tema apenas como uma questão de engenharia. É preciso investir muito mais em pesquisa sobre interação humano-computador e em políticas de governança. Só assim será possível enfrentar a turbulência social que virá com a chegada das inteligências artificiais mais avançadas.
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Este post foi modificado pela última vez em 30 de setembro de 2025 13:01
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