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Inteligência Artificial

O que a história do Japão, URSS e Europa ensina sobre o futuro da inteligência artificial

Publicado por
Isabella Caminoto

Carl Benedikt Frey, professor associado de Inteligência Artificial e Trabalho na Universidade de Oxford, publicou um artigo no site do Fundo Monetário Internacional (FMI) em que revisita lições históricas para lançar um alerta sobre o futuro da tecnologia. Em “How the Battle for Control Could Crush AI’s Promise”, Frey defende que tanto governos centralizadores quanto monopólios corporativos podem sufocar a capacidade da inteligência artificial de gerar inovação e crescimento. “A centralização e a concentração podem apagar o potencial produtivo da tecnologia”, afirma.

Lições da União Soviética e da Europa

Frey lembra que, durante a Guerra Fria, muitos acreditavam que a União Soviética superaria os Estados Unidos em desenvolvimento econômico. A URSS chegou a criar um polo tecnológico em Zelenograd para competir com o Vale do Silício. Mas a aposta na centralização falhou. “O obstáculo não era a escassez de talento científico, mas instituições hostis à exploração”, observa. Para ele, o modelo soviético mostrou que sistemas rígidos podem até funcionar em tarefas previsíveis, mas se perdem diante da incerteza tecnológica.

O mesmo ocorreu em parte da Europa. Países como França, Itália, Espanha e Portugal prosperaram no pós-guerra copiando tecnologias estrangeiras, mas ficaram para trás com a revolução dos computadores. “Milagres econômicos estancam quando as instituições que sustentaram sucessos passados se tornam desalinhadas com novos desafios”, resume Frey.

O caso japonês: da liderança ao atraso

O Japão também ilustra essa dinâmica. O país se destacou ao aperfeiçoar tecnologias criadas no Ocidente, tornando trabalhadores 17% mais produtivos que os americanos em 1980. Contudo, ao priorizar eficiência e coordenação em vez de pioneirismo, perdeu espaço quando o foco mudou para software e internet. Nos Estados Unidos, políticas antitruste abriram espaço para Apple e Microsoft liderarem a nova era. “Sem um único guardião do mercado, os empreendedores puderam inovar livremente, e a web se expandiu sem obstáculos”, explica o pesquisador.

O risco para a inteligência artificial

O professor de Oxford vê paralelos claros com a inteligência artificial. Hoje, muitos acreditam que a corrida pela IA se resume a escalar poder computacional e dados nas mãos de poucos campeões nacionais ou gigantes corporativos. Para Frey, essa visão é equivocada: “Como na revolução dos computadores, as verdadeiras descobertas vêm da exploração do desconhecido, não do aperfeiçoamento do que já está formalizado”. Ele lembra que, apesar do crescimento de 10.000 vezes nos modelos de linguagem entre 2019 e 2024, seu desempenho em tarefas avançadas de raciocínio segue limitado.

Segundo o autor, avanços mais promissores têm surgido de métodos alternativos, como o aprendizado em contexto. E reforça: “A engenhosidade floresce justamente onde os precedentes são frágeis. Inventores e empreendedores prosperam ao transformar o desconhecido em oportunidade”.

China e Estados Unidos: concentração em dois estilos

Na China, o problema é o controle político. Embora startups como a DeepSeek demonstrem inovação, o ambiente de negócios é moldado por lealdade ao Partido, não por competição aberta. “A patronagem eclipsa regras transparentes, e a lealdade substitui a competência, corroendo a capacidade do Estado de nutrir inovação de ponta”, critica Frey.

Nos Estados Unidos, a concentração ocorre via mercado. Ele aponta que a Microsoft, em parceria com a OpenAI, domina cerca de 70% do mercado de modelos de linguagem, enquanto a Nvidia controla mais de 90% do fornecimento de chips especializados. “Sustentar um regime que protege a arena competitiva em si, e não a sorte de empresas específicas, é essencial para que a próxima geração de inovadores realmente cumpra as promessas da IA”, adverte.

O futuro da inovação em IA

Carl Benedikt Frey conclui que a lição histórica é clara: avanços tecnológicos não dependem apenas de escala, mas de diversidade de experimentos e competição aberta. Como no passado, será a descentralização que permitirá transformar descobertas em progresso econômico. “As inovações decisivas não vão emergir de escalas centralizadas, mas de ampliar o espaço de experimentação e reduzir barreiras de entrada”, diz.

Este post foi modificado pela última vez em 19 de setembro de 2025 12:25

Isabella Caminoto

Advogada e mestranda em Direito Internacional, tenho a democracia e a liberdade como bandeiras irrenunciáveis. Sou apaixonada pelos animais e acredito que o bem-estar do nosso planeta deveria ser o destaque diário da pauta da nossa sociedade.

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